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Blog :: Affonso Romano Sant'anna
NOS CAMINHOS DE BACH

 NOS CAMINHOS DE BACH

 

 

Affonso Romano de Sant’Anna

 

Estou ouvindo (enquanto escrevo esta crônica) o Contraponto I da “Arte da Fuga”de Johan Sabastian Bach. Acionei o Youtube. Agora é Glenn Gould tocando o Contraponto IV. Posso ouvir (e ver) quase todo Bach pela internet. Mas,  como diziam os crentes nas igrejas de minha infância- “ Deus, na sua infinita misericórdia e apiedou desse picador”   e de mais umas 30 almas privilegiadas e  nos colocou “nos caminhos de Bach”.

Na verdade, na verdade vos digo: não estou aqui escrevendo essa crônica, estou na Alemanha e começarei (com Marina)  a fazer uma peregrinação musical pelas cidades onde Bach viveu e onde tocou suas peças. Quem inventou isto foi a Elisa Freixo, que é a soberana rainha dos órgãos de Mariana, Tiradentes, de várias igrejas no Brasil e no mundo. Ela inventou com Jean Ferrard essa viagem  que todos os querubins e serafins também gostariam de fazer.

Passaremos pela Saxônia, Thuríngia e Hamburgo. Quando voltar, se é que volto desse arrebatamento, já não serei o mesmo homem.  Estarei como aquele brasileiro de Nelson Rodrigues que passou 24 horas em Roma, extasiando  diante de ruínas milenares: quando voltou, e seu avião passou diante do Corcovado, o Cristo já não o reconheceu, era outra pessoa. 

Por causa de Elisa, escrevi há tempos, aqui, uma crônica sobre uma coisa intrigante: o “acorde demoníaco”.  Além do mais ela tem um museu de instrumentos antigos em sua casa e alguém deveria institucionalizar isto. Ainda esta semana, em Belo Horizonte, vi o estupendo Museu Inimá de Paula, com quem bebi e convivi nos bares da vida. Alguém tem que fazer alguma coisa para canonizar Elisa e viabilizar o seu museu. Quando eu soube que ela tinha  a chave  para entrar na Catedral de Chartes, na França, e tocar seu fabuloso órgão, cometi  esse poema que está em “Sisifo desce a montanha”:

Minha amiga

tem a chave

da Catedral de Chartres.

Não lhe bastava ser senhora

dos antigos órgãos de Minas.

Quando nada ocorre

na Catedral de Chartres

(missa, bodas, enterro)

ela entra

e solene

solitária

assenta-se soberana

e desencadeia acordes portentosos.

É quando os vitrais da igreja tornam-se sonoros

e se há céu e se há anjos

alguns deles

( transparentemente) choram.

Pois outro dia, por causa de uma exposição comemorativa do músico contemporâneo John Cage, botei no “facebook”a pergunta: “Que fazer de John Cage?”. Foi uma revoada de opiniões saindo da gaiola. Um leitor lembrou um poema onde eu narrava que ao contemplar  um quadro de Paolo Ucello, num museu na Áustria, anotei: “Exijo respeito, não me venham falar de Marcel Duchamp”.

Pois agora posso adaptar aquele poema e dizer:

 

“Estou   numa cathedral alemã

ouvindo a Fuga Magnificat BWV 733

e exigo respeito.

 - Não me venham falar de John Cage”.

DIA DAS MAES

 ESSA CRôNICA PUBLICADA HA QUASE 30 ANOS, QUE CIRCULA NA INTERNET(as vezes commodificações):

ANTES QUE ELAS CRESÇAM

 

 

Affonso Romano de Sant’Anna

 

 

 Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

                É  que as crianças  crescem. Independentes de nós, como árvores  tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços , os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes,  com alardeada arrogância.

 Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

                Um dia  se assentam  perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos  e o  primeiro uniforme do maternal?

Ela  está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que   saiam esfuziantes sobre patins , cabelos   soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

             Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois  ali  estamos, depois  do primeiro e do segundo casamento , com essa barba  de jovem  executivo ou intelectual  em ascensão, as mães , às vezes,  já com a primeira plástica e o casamento recomposto.  Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas , vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando   órfãos dos próprios filhos.

            Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais  as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando  surgiam entre gírias  e canções.  Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram  para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta  dizer “bonne route , bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro  jantar no apartamento dela.

            Deveríamos ter ido mais  vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir  sua alma  respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens,, posteres e agendas coloridas de pilô.  Não,  não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

                 Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

No princípio  subiam a serra ou iam à casa de  praia entre embrulhos, comidas,

engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches  infantis.  Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo  com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia  e os primeiros namorados. Esse exílio  dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha  terem a solidão que queriam , mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

              O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o  nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

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(O homem que conheceu o amor/Rocco, 1988)

 

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