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Blog :: Affonso Romano Sant'anna
QUASE DIARIO: " ULTIMA CONVERSA COM FLAVIO"

 QUASE-DIARIO/  Jornal RASCUNHO: março 2012

 

ÚLTIMA CONVERSA COM FLÁVIO

 

                                    Affonso Romano de Sant’Anna

 

24.02.1988- Acabou de me ligar Flávio Rangel.Ontem tentei falar três vezes com ele, tão logo soube pelo Zuenir Ventura, que o câncer de pulmão tinha voltado e, por isto, Flávio não estava escrevendo mais suas crônicas no  JB.

            Liguei, mas só pude falar com a empregada. Ariclê não estava e Flávio descansava, não podendo atender. Liguei mais tarde e aí consegui falar com Ariclê.

            É dificil. É muito dificil. O que é que a gente vai dizer numa ocasião  dessas? Sei que outros pensam: não vou incomodar, pois fazer um doente terminal falar sobre sua doença é um suplício para ambos.  Penso nisto, mas também  penso  o contrário. Que o outro do lado de lá, está numa solidão danada, porque é normal que as pessoas se afastem consumidas em suas ocupações e por medo de se envolverem. Além do mais, devemos dar ao outro o direito de dizer se quer ou não converser, se quer ou não receber visitas.

            Na conversa com Ariclê ela me relata que Flávio pelas manhãs, se sente melhor. De tarde descansa. Disse-lhe então que transmitisse a ele o meu carinho e que se achasse que não atrapalhava, aparecia por lá.

            Pois ele me ligou agora. Sua voz delicada e sempre firme. E foi direto ao assunto.  Não ficou rodeando, fingindo, tapeando. Completamente diferente de um conhecido que ao receber telefonema de um amigo, em idêntica situação, não só desconversou como ainda disse que estava ótimo.

            Flávio, não. Foi diretamente ao assunto dizendo que queria ter um fim digno, um resto de vida útil. Não queria ser problemático nem dependente. Contou-me que havia  começado um tratamento quimioterápico, mas que havia solicitado ao médico que ficasse atento, pois, repetia enfático, queria ficar lúcido e firme.

            Nunca vi uma conversa tão límpida e madura em situação tão dificil. Aliás, a situacão perdeu seu caráter constrangedor e, em pouco tempo conversávamos  sobre a sua morte com uma intimidade e uma clareza, como se ele não fosse mais morrer ou como se a morte fosse uma assunto sobre o qual se pode conversar desassombradamente.

            Falava-me ele do caso de Nara Leão. Bem que os jornais de alguma maneira filtraram alguma coisa a respeito. Ela voltou radiosamente à vida normal. O Flavio está tentando o mesmo medico, lá em Belo Horizonte, mas sente que ele não lhe deu muitas esperanças. Falei então do Darcy Ribeiro: retirou um pulmão com câncer , e como o próprio Darcy  me disse outro dia, o pulmão restante começou a crescer… Só o Darcy! Aí já havia quase bom humor na conversa. E Flávio diz que esse é o caso semelhante ao do Chacrinha, e me fez uma descrição detalhada.

            Flávio não se ilude. É contra essa coisa de medicina ocidental de ficar prolongando a vida com sofrimentos inúteis. Lembrou-me que conversou sobre isto com o Darcy no enterro do Henfil. No enterro do Henfil, o vi (enquanto conversava com o Ziraldo) e o Ziraldo ali me dizia que estava impressionado com o Flávio: “Cara macho tá ali!”, dizia. Naquela época o câncer do Flávio havia sido controlado ou regredido.

            E a conversa correndo, surgiu o nome de Maria Julieta Drummond: ela teve três ou quatro anos mais do que os três ou quatro meses que a medicinal lhe deu. Flávio repete: não quer sobrevida, que vida mesmo, ou nada. E vai dizendo que parou de fazer as crônicas no JB porque estava com dificuldades para se concentrar. Era um esforço danado. E dizia:”Você sabe, nós fazemos uma crônica diferente dos maravilhosos cronistas dos anos 50. É voltada para o cotidiano e participação. E a leitura dos jornais me cansa. De manhã  ainda consigo ler um pouco um jornal, mas à tarde durmo. Meu dia encolheu”.

            A conversa terminou mais ou menos por aí.

            O que dizer mais? O amigo vai morrer. Está morrendo com uma  dignidade rara. Aliás, me lembro que ele disse outra  coisa  relativa a essa tragédia das enchentes de fevereiro: “Já que começamos a falar dessas enchentes como dizia Shakespeare, até a queda de um pardal é regulada pela Providência. Se vai cair hoje ou amanhã, é outra coisa. Tudo tem seu fim. Que seja digno”.

 

            25.10.1988. De manhã telefona-me Kay, esposa de Moacyr Felix:  “Morreu Flávio Rangel”.

 

            26.03.2006. Ariclê Perez suicidou-se jogando-se da janela de seu apartamento (10º andar) em Higienópolis. Seu último trabalho foi representar a mãe de Juscelino na minisérie JK .

 

QUASE DIARIO: TELEVISAO E LITERATURA: " Apostrophe"

 

fevereiro 2012 / Quase-diário / Literatura e televisão (na França)

LITERATURA E TELEVISÃO (NA FRANÇA)

Bernard Pivot recebe Alexandre Soljenitsyne no Apostrophe

18.01.2012
Nos dois anos em que dei aulas em Aix-en-Provence, via semanalmente o notável programaApostrophe; Bernard Pivot entrevistava escritores. O programa tinha uma audiência imensa. As livrarias da França expunham nas vitrinas e mesas os livros citados no programa. Pivot, durante 30 anos, foi um invejável fenômeno de comunicação. Leio agora no Le Nouvel Observateur que três programas dedicados a livros na televisão francesa deixarão de existir. Permanecerá apenas La Grande Librairie, de François Busnel. A reportagem se refere a Pivot como uma lenda. Abro algumas anotações feitas há 30 anos.

03.03.1981
Na TV-2, programa Apostrophe de Bernard Pivot. Entrevista uma jovem autora que escreveu Paul Nizan, communiste impossible. Vem à tona o problema da relação intelectual dentro do “partido”. Confirma-se tudo o que eu pressentia na adolescência e não ouvia ninguém dizer: o “partido” é uma “igreja”.

Nizan largou o “partido” desiludido com a Rússia, que fez um acordo com os nazistas (década de 30). Os comunas, então, passaram a execrar Paul Nizan, a chamá-lo de tudo. Só muito recentemente se pôde ver isto claramente.

Também no programa, depoimento de Olivier Todd — Un fils rebelle. Ele diz algumas coisas sobre Sartre, coisas que eu e Marina já havíamos conversado quando publicamos no JB uma longa entrevista de Simone e Sartre comentada por nós dois.

Percebe-se que Simone era mais séria, ele às vezes opinava sobre livros que não lera. De minha parte, lendo a trajetória dele, resumida no Nouvel Obs, vi certa ligeireza nas suas tomadas de posição.

30.04.1982
Acabo de ver outro Apostrophe: René Girard (Le bouc émissaire), Evtushenko (Les baies sauvages de Sibérie), e um chato inglês David Lockie (L’amour d’une reine). Pivot fez perguntas duras a Evtushenko: sobre a Sibéria, por exemplo. E ele contra-atacou dizendo que não era inspetor de prisões para responder. Sobre Stálin: disse ser anti-stalinista, mas não aceitou compará-lo a Hitler. Atacou também a malícia de Pivot, que se saiu bem, dizendo que tal malícia era francesa.

Evtushenko dá uma impressão sólida. Tem lá conflitos com seu país, mas saiu-se bem. Fez sobretudo uma fala antinuclear.

René Girard é interessante, mas esse cristianismo dele é de matar. Sua teoria sempre voltando à mitologia e à Bíblia me parece um belo exercício ficcional. O ensaísta neste sentido é semelhante ao romancista: criar metáforas que dêem conta da interpretativa do real.

02.05.1982
Acabo de ouvir no Apostrophe uma das mais incríveis histórias jamais imaginadas. Mas real. Vou comprar o livro Elissa Rhais, de Paul Tabet. Ela foi uma escritora famosa entre 1918 e 1939. Um rico comerciante no Marrocos vende sua filha de origem judia para um harém onde as mulheres não têm nada a fazer senão engordar. Seu nome: Leila Bou Mendil. Quando ela chega à adolescência, seu senhor resolve que ela vai ter que se apaixonar por ele. Durante meses tenta tudo. A jovem se deixa possuir, mas não demonstra o menor sentimento. O senhor então ordena que ela fique enclausurada para sempre. Um dia, o senhor morre. E ela, liberta, recebe uma herança de família. A situação se inverte: ela agora conhece um garoto de uns 15 anos a quem toma como amante e a quem decide contar algumas estórias do harém. O garoto resolve escrever a história. Ela conta outra. Ele a escreve. Ela, que era analfabeta, faz chegar os originais a um editor, mas com o seu nome. E assim, durante dezenas de anos ela mantém o rapaz anônimo e freqüenta a vida social-literária de Paris, onde é requisitadíssima. Porém, no dia em que vai receber a Légion d’honneur, leva consigo o garoto e o escândalo aparece. Passado o terremoto, daí a poucos anos ela morre. O rapaz, de nome Raul, casa-se, constitui família. E nunca contou à sua própria família essa história vivida. Ele tem um filho a quem conta a história de ter sido aprisionado pela mulher, que assim se vingava dos homens. Mais: pressente que se ele deixar o pai sozinho, o pai se matará. Resultado: cansado de uma vigília, o rapaz deixa o pai a sós. Daí a duas horas o pai se mata. Passam-se 15 anos e o rapaz, enfim, escreve esse livro.

No programa também Roger Vadim (L’ange affamé), Vittorio Gassman (Un grand avenir derrière moi) e Roger Gouse, cunhado de Mitterand, amigo de Bernanos, com quem conviveu no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial (Le mirroir portable).

Incrível o programa. O sarcasmo e a ironia de Gassman dizendo que virou ator no enterro do pai, quando sentiu a situação do ator que se observa; que não chorou, e que após o enterro fechou-se no quarto e quebrantou-se em lágrimas. Debochado, diz que ama mulheres, dinheiro e representar inclusive filmes ruins tanto quanto os sublimes.

Vadim fazendo um discurso sobre a necessidade de manter a curiosidade fora da profissão, manter a juventude mais que a carreira.

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

É poeta, cronista e ensaísta. Autor de Que país é este?, entre outros. Vive no Rio de Janeiro (RJ).

 
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