FESTIVAL LITERÁRIO DE CATAGUASES

Postado por Affonso Romano, em 07/09/2010, às 18:56

 Nesta quarta-feira, dia 8, estarei no II FESTIVAL LITERÁRIO DE CATAGUASES, com vários outros artistas e escritores.

CATAGUASES, vocês sabem, não tem apenas aquele colégio no qual  Carlos Imperial e Chico Buarque estiveram internados. É a terra de Humberto Mauro e   da Revista Verde (que abrigou nomes como Rosário Fusco, Guilhermino César, Francisco Inácio Peixoto, Ascânio Lopes, etc).

Inácio Peixoto levou para sua cidade  obras de artistas como Niemeyer,  Portinari, Burle Marx, E desde  os anos 60/70 uma nova geração da qual participam Ronaldo Werneck e Joaquim Branco transformaram a cidade numa referência nacional. É de lá que vieram Lina  Tâmega e Luis Ruffato.

No inicio de 1970 realizou-se ali ( estive presente) um formidável festival de música popular brasileira, que revelou a Maria Alcina.

Estive lá ha alguns anos fazendo conferência, lançando A SEDUÇAO DA PALAVRA e agora, a convite de Geraldo Filho, volto para lançar QUE PAIS É ESTE?. 

Passarei antes por Leopoldina para um coquetel entre amigos.


FRAGMENTOS COLOMBIANOS (*)

Postado por Affonso Romano, em 05/09/2010, às 16:46

             *  Numa das recepções, há alguns anos,  na casa do embaixador Alberto da Costa e Silva, quando este serviu na Colômbia, ia a festa chegando ao fim quando o garçon começou a servir "café colombiano" aos convidados.

- Usted acepta un café colombiano?  ia ele delicadamente perguntando a cada convidado,  quando a embaixatriz Vera  resolveu chamá-lo a um canto e dizer-lhe que não ficava bem servir "café colombiano"  na casa do embaixador brasileiro. Ao que ele se explicou:

- Señora, é que o café esta noite estava tão ruim que achei melhor dizer que era colombiano...

 * Estou no exterior e há muito que não tinha essa impressão: de que se pode ter orgulho de ser brasileiro.  Acostumado nas últimas décadas a ser olhado com desdém é a primeira vez que como brasileiro sou olhado com respeito. Virou um consenso a idéia de que o Brasil é  um líder internacional, que fez mudanças importantes na vida política e social. Nos jornais, sempre palavras de elogio ao nosso país.

O que se diz do Brasil lá fora não bate com o que os brasileiros dizem do Brasil aqui dentro, como a confirmar aquela frase de Nelson Rodrigues, de que o brasileiro é um narciso às avessas, cospe na própria imagem.

 *  De Bogotá vou ao interior, à rica região produtora de café ( Pereira). Um país tão lindo, grande exportador de flores e orquídeas e que produz 53% das esmeraldas no mundo. Frequentando esse país há quase 30 anos, conhecendo tanta gente fabulosa, fica cada vez mais absurdo que alguns alucinados, se dizendo marxistas e revolucionários, tenham se associado tragicamente ao narcotráfico.

*Leio o livro do Major Luiz Alberto Villa Marin Pulido, sobre o líder dessas famigeradas guerilhas: "Tirofijo: el cartel e las FARC" e está lá um dado extraído do  "The Economist"(13.1.1996): só entre 1991 e 1994, o  sequestro de 2.300 pessoas, rendeu $ 350 milhões de dólares aos narcoguerrilheiros. E a extorsão generalizada nesse período chegou a 1 bilhão e oitocentos, ou seja, 40 vezes a renda per capta do pais.

* Num colégio  de periferia na cidade de Pereira, vou com outros poetas para ler poemas e conversar com a meninada. São dezenas. Estão sentados numa arquibancada. O poeta mexicano José Villareal resolve ler para eles a sua tradução para o espanhol do poema de Drummond: :"No meio do caminho".

Quando começa a repetir: " No meio do caminho  tinha uma pedra, tinha uma pedra  no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra" os meninos começam a  abanar a cabeça como quem diz, "essa não"  e morrem de rir.

. Ledo Ivo, que está também nesse Festival de Poesia, é um poeta muito conhecido na América Latina. Tem várias antologias publicadas. Hoje um jornal publicou o seu "Valsa de Hermengarda" um poema funéreo, dark, neogótico que li na biblioteca dos SESI ,em Juiz de Fora na década de 50, e ficou na minha memória.

              * Por que será que em nossos países há mais loiras nos anúncios e na televisão do que nas ruas?

             *Numa livraria de aeroporto, entre os best-sellers, vejo vários livros de Hegel, como esse "Fenomenologia do Espírito". Portanto, nem tudo está perdido.

              * Depois de participar aqui de leitura de poesia em Observatório Astronômico, Jardim Botânico,  auditório  de universidade, centros culturais e até em praça públi9ca com fonte luminosa, estou no aeroporto e revejo aquele documentário sobre como os espetáculos de Michael Jackson eram preparados, com uma fabulosa tecnologia.

Imagine se os poetas pudessem contar com som,  canhões de luz, fumaças, malabarismos, danças e não sei quantas estripolias nas leituras  de poemas?

 (*) ESTADO DE MINAS /CORREIO BRAZILIENSE


TER UM A IDEIA GENIAL...

Postado por Affonso Romano, em 04/09/2010, às 12:53

 Já que Einstein está sempre na moda, com ou sem S.Hawking, achei nos meus arquivos esta crônica publicada há quase dez anos:

       

              TER UMA IDÉIA  

 

 

Affonso Romano de Sant’Anna

 

 

              Volta e meia pessoas julgam ter tido uma idéia genial. As redações de jornais (do meu tempo) eram sempre invadidas por inventores e iluminados que queriam comunicar ao mundo suas descobertas. Desde Platão e Aristóteles  que está difícil ter idéias novas, mas insistimos.

As gerações mais recentes de Minas não conheceram o Fritz Teixeira de Salles. É dele uma estorinha a respeito.

Em torno dos anos 60, futuros e  maduros escritores   encontravam-se de tardinha na entrada do edifício Dantés, na Livraria Itatiaia e no Lua Nova. Fritz, entre todos, era sempre uma festa verbal e afetiva. Comunista histórico, com irônico ódio aos Estados Unidos,  contou-nos, gesticulando,   a seguinte parábola capitalista em torno de “ter uma idéia”.

       Um  dia um cidadão americano teve uma idéia. Uma idéia para um filme. Como  naquela sociedade pragmática  e utilitarista ter uma idéia pode tornar a pessoa milionária, pois é patenteada, industrializada e exportada para o mundo inteiro, ele tentou vender sua idéia para um  estúdio cinematográfico. Escrevia cartas e não tinha resposta. Telefonava e não conseguia atenção.

       O homem da idéia resolveu infiltrar-se num estúdio. Escondeu-se no teto do set de filmagens, e quando um diretor ia gritar “ação”, ele desabou no meio da cena e gritou: “Eu tenho uma idéia!”.

       Fez-se um espantoso silêncio capitalista. O diretor levantou-se, dirigiu-se a ele como quem vê uma  pedra preciosa ou um animal raro e indagou:- “Você teve uma idéia, aqui, nos Estados Unidos?”. (Fritz dizia isto ironizando a possibilidade do cidadão americano pensar por si mesmo). –“Sim, eu tive uma idéia ”, repetiu. Então, o diretor cobrou:-“Diga qual é”.

       O homem da idéia vendo que o outro mordeu a isca foi logo ponderando :-“Não, não é assim não, primeiro eu assino o contrato, depois conto a idéia”. Assinou, a idéia era mesmo boa, o filme fez um sucesso tremendo. 

       Daí a um ano o diretor pensou:-“Cadê aquele homem da idéia? Precisamos de outra idéia”. Mas não conseguiam achá-lo. Mobilizaram o FBI, a CIA e enfim o localizaram em Paris. “- Queremos outra idéia!”, lhe propuseram. E ele: “-Alto lá, péra- aí. Eu prá ter aquela idéia viajei, vivi e prá ter outra idéia preciso viver e viajar. Vamos assinar outro contrato pelo qual vocês vão me pagando, eu vou vivendo, quando tiver uma idéia lhes comunico”.

       E não é que assinaram esse contrato? De vez em quando o homem da idéia mandava uma das ilhas dos Mares do Sul, anos depois, outra da Finlândia. E assim viveu o resto de sua vida sendo  regiamente pago para ter idéias”.

       Ia terminar essa crônica por aqui com mais uma ou outra frase que pretendia fosse apropriada para em fecho, quando me lembrei do que ocorreu com Alceu Amoroso Lima( o crítico Tristão de Athayde), que serviu de cicerone para Einstein quando este veio ao Brasil no princípio do século XX. ( Na verdade, já vi essa estória tendo Paul Valery como personagem). De qualquer modo, indo e saindo de almoços, embaixadas e monumentos com o célebre autor da teoria da relatividade, Alceu estava sempre anotando coisas num caderninho. Intrigado com aquilo, Einstein resolveu perguntar a Alceu( ou Valery):-“O que  é que você tanto anota nesse caderninho?”. – “Ah!- respondeu- toda vez que tenho uma idéia eu a anoto nesse caderninho para não perdê-la”.

       Ao que Einstein arrematou:- “Engraçado, eu só tive uma idéia até hoje…”

Estado de Minas/Correio Braziliense, 10.12.2001

              

 


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