* Numa das recepções, há alguns anos, na casa do embaixador Alberto da Costa e Silva, quando este serviu na Colômbia, ia a festa chegando ao fim quando o garçon começou a servir "café colombiano" aos convidados.
- Usted acepta un café colombiano? ia ele delicadamente perguntando a cada convidado, quando a embaixatriz Vera resolveu chamá-lo a um canto e dizer-lhe que não ficava bem servir "café colombiano" na casa do embaixador brasileiro. Ao que ele se explicou:
- Señora, é que o café esta noite estava tão ruim que achei melhor dizer que era colombiano...
* Estou no exterior e há muito que não tinha essa impressão: de que se pode ter orgulho de ser brasileiro. Acostumado nas últimas décadas a ser olhado com desdém é a primeira vez que como brasileiro sou olhado com respeito. Virou um consenso a idéia de que o Brasil é um líder internacional, que fez mudanças importantes na vida política e social. Nos jornais, sempre palavras de elogio ao nosso país.
O que se diz do Brasil lá fora não bate com o que os brasileiros dizem do Brasil aqui dentro, como a confirmar aquela frase de Nelson Rodrigues, de que o brasileiro é um narciso às avessas, cospe na própria imagem.
* De Bogotá vou ao interior, à rica região produtora de café ( Pereira). Um país tão lindo, grande exportador de flores e orquídeas e que produz 53% das esmeraldas no mundo. Frequentando esse país há quase 30 anos, conhecendo tanta gente fabulosa, fica cada vez mais absurdo que alguns alucinados, se dizendo marxistas e revolucionários, tenham se associado tragicamente ao narcotráfico.
*Leio o livro do Major Luiz Alberto Villa Marin Pulido, sobre o líder dessas famigeradas guerilhas: "Tirofijo: el cartel e las FARC" e está lá um dado extraído do "The Economist"(13.1.1996): só entre 1991 e 1994, o sequestro de 2.300 pessoas, rendeu $ 350 milhões de dólares aos narcoguerrilheiros. E a extorsão generalizada nesse período chegou a 1 bilhão e oitocentos, ou seja, 40 vezes a renda per capta do pais.
* Num colégio de periferia na cidade de Pereira, vou com outros poetas para ler poemas e conversar com a meninada. São dezenas. Estão sentados numa arquibancada. O poeta mexicano José Villareal resolve ler para eles a sua tradução para o espanhol do poema de Drummond: :"No meio do caminho".
Quando começa a repetir: " No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra" os meninos começam a abanar a cabeça como quem diz, "essa não" e morrem de rir.
. Ledo Ivo, que está também nesse Festival de Poesia, é um poeta muito conhecido na América Latina. Tem várias antologias publicadas. Hoje um jornal publicou o seu "Valsa de Hermengarda" um poema funéreo, dark, neogótico que li na biblioteca dos SESI ,em Juiz de Fora na década de 50, e ficou na minha memória.
* Por que será que em nossos países há mais loiras nos anúncios e na televisão do que nas ruas?
*Numa livraria de aeroporto, entre os best-sellers, vejo vários livros de Hegel, como esse "Fenomenologia do Espírito". Portanto, nem tudo está perdido.
* Depois de participar aqui de leitura de poesia em Observatório Astronômico, Jardim Botânico, auditório de universidade, centros culturais e até em praça públi9ca com fonte luminosa, estou no aeroporto e revejo aquele documentário sobre como os espetáculos de Michael Jackson eram preparados, com uma fabulosa tecnologia.
Imagine se os poetas pudessem contar com som, canhões de luz, fumaças, malabarismos, danças e não sei quantas estripolias nas leituras de poemas?
(*) ESTADO DE MINAS /CORREIO BRAZILIENSE