Bogotá- Há quase 30 anos que faço o tráfico de poesia e de literatura entre Brasil e Colômbia. Certa vez aqui na alfândega até me olharam com suspeita. Agora, por exemplo, estou hospedado na Zona Rosa- uma ilha de prosperidade multinacional com shoppings, gente rica, segurança e aqueles cães com focinheiras, belos restaurantes e cafés. Essa é uma paz aparente. Aquela guerrilha maluca do narcotráfico continua atormentando as pessoas. Há alguns anos, numa recepção no Palácio Presidencial, o então presidente Samper me disse que tinha balas no corpo- conseqüência de um atentado. Contei-lhe que o chofer que havia me levado ao palácio também tinha pedaço de bala no corpo, e o presidente Samper mandou-lhe um bilhete acolhendo-o na Ordem dos Colombianos com Balas no Corpo.
Ontem fiz uma palestra e li poemas na CASA DE POESIA SILVA, agora dirigida por Pedro Alejo. Anteriormente a diretora era Maria Mercedez Carranza, poeta, que se matou deprimida pela situação do pais. Alias, o patrono da Casa- poeta José Asunción Silva também se matou. Não é nada fácil ser um escritor colombiano nesses dias. O poeta Dario Jaramillo tem uma perna mecânica, porque foi vitima num atentado.
E, no entanto, a Colômbia resiste e avança. E a leitura, a poesia e as bibliotecas fazem parte do avanço e da resistência. Almoço com Ana Fornaguera (que dirige a Biblioteca Nacional) Carmen Barvo ( Fundalectura) e Margarida Duran( Instituto Brasil Colômbia), e me informo. Medellín, que era uma cidade problema, agora tem uma fabulosa biblioteca no meio da maior favela, que virou modelo para iniciativas brasileiras. O país avança e há uma grande confiança no recém empossado presidente Juan Manuel Santos. Retomou o diálogo com o desvairado Chávez da Venezuela e acabou com o polêmico projeto de instalação de bases americanas na Colômbia.Como disse um jornalista, esse era um projeto da era Bush-Uribe, não da era Obama-Santos.
Aqui acompanham com muito interesse o que ocorre no Brasil. Leio um editorial no jornal Nuevo Siglo. Diferente dos jornais brasileiros que dão uma visão sempre negativa do Brasil, a imagem que temos aqui fora hoje é a melhor possível. Vai ver que Nelson Rodrigues tinha razão: o brasileiro é um Narciso às avessas, sempre cospe no próprio rosto.
Os colombianos olham o Brasil quase que extasiados com o que temos feito. O problema é de escala. Eles lutam para dar emprego a 2,3 milhões de colombianos e o Brasil criou 23 milhões de novos empregos. Prova do interesse pelo Brasil é o Instituto Brasil Colômbia, dirigido por Magarita Duran, que está recebendo uma enchente de alunos e vai ter que mudar de sede para atender a todos.
Minhas perplexidades e minha vida passam por este pais. Se me permitem revelar, há tempos recebi até a Medalha de Cidadão de Medellín. Quando Alberto da Costa e Silva era embaixador aqui ele congregava toda a intelectualidade do país em sua casa. E muita gente não sabe, mas o nosso Guimarães Rosa, servia aqui em 1948 quando houve aquela revolta chamada Bogotazo( olhem no Google). Estou me lembrando de um passeio com o filósofo Rubem Sierra, há tempos, pelo centro histórico de Bogotá. Mostrava-me ele todas as marcas da antiga violência na arquitetura da cidade. Sim, somos violentos: Brasil, Colômbia ou México. Exercitamos a violência internamente. Já os Estados Unidos, Inglaterra, França, Espanha e Bélgica, em sua vocação colonialista, exercitam a violência para fora, nos países alheios.
Estou lhes escrevendo pouco antes de ir ao Instituto Brasil Colômbia para dizer poemas e conversar com o público. No dia seguinte vou para uma cidade do interior- Pereira, onde ocorre um festival internacional de poesia.
Poesia também é uma droga. Mas ligada à vida.
(*) Estado de Minas/29.08.2010
(*) Estado de Minas/29.08.2010
27.08.2010-
