Em fevereiro de 2005 publiquei n O globo  essa crônica sobre  a reunião de Davos, sobre o livro de Thomas Mann, etc. 

Estou voltando do FORUM SOCIAL MUNDIAL (PO) e o confronto é inevitável. Também inevitável reler o passado.


         DAVOS: A MONTANHA MÁGICA

 

Affonso Romano de Sant’Anna

 

         Durante os últimos dias, muito ouvimos falar de Davos- um lugar na Suiça onde se reuniram os luminares de todo o mundo para discutir as ansiedades que nos paralizam e as perplexidades que nos mobilizam.  Possivelmente o leitor comum até já se desligou, já descartou a palavra Davos de sua memória. Afinal, outras palavras gritantes e urgentes ocuparam as machetes. A imprensa é uma espécie de grande liquidificador onde as notícias são jogadas. Um pedaço de banana, pêra, laranja, mamão, um pouco de leite, e eis aÍ a vitamina. Vitamina viva?ou veneno do dia-a-dia?

           Por coincidência  Davos é também o cenário onde se monta    a ação de um famoso romance escrito por Thoman Mann-”A montanha mágica”. O romance é de 1924 e descreve a vida de um grupo de personagens doentes que, no princípio do século, se intalaram  no Sanatório  Berghof,  procurando recuperar sua saúde. 

         Um mundo enfermo foi de novo a Davos procurando diagnosticar seus males e ali em sucessivos e variados seminários se indagou onde   estaria a cura dos males de nossa civilização. Lá estavam  Tony Blair, Lula e os presidentes de dezenas de países desimportantes. Lá estavam Bill Gates e os gerentes de agências financiadoras de todo o mundo. Lá estava até Sharon Stone recolhendo um milhão de dólares para as desgraças na Tanzania. Enfim, lá estava uma amostra da sociedade atual, ou melhor, lá estavam os pagés das diversas tribos de nossa sociedade eletrônica tentando exorcisar as doenças da comunidade.

        

         Na obra de Mann os pacientes de Davos-Platz vêm também de todo o mundo.  É igualmente uma reunião de cúpula, porque tudo ocorre no topo de uma montanha a dois mil metros de altura. Lá em cima , no olimpo, alcançam-se  verdades eternas. Afinal, foi lá de cima, de uma espécie de montanha mágica que Moisés um dia desceu com os seus dez mandamentos.

         Thomas Mann usa um artifício para organizar o  “forum” de seu romance. O personagem Hans Castorp vai ao sanatório em Davos para visitar seu primo Joaquim, que estava ali internado. Era uma visita apenas, mas Castorp   submeteu-se   a um exame e descobriu que também estava enfermo. Resultado: acabou ficando ali sete anos. Sete anos que se transformaram num grande seminário da inteligência enferma em busca da saúde possível. O tempo todo os internos discutem sobre a Ciência, a Fé, a Morte, o Amor e sobre as questões que atormetavam os intelectuais do fim do século XIX e princípio do século XX.

         Nesse sentido “A montanha mágica” é um romance muito antigo. É de leitura até tediosa. Além do mais tem 800 páginas. Sua leitura fluente só é possível por quem está com hepatite( foi assim que li algumas obras clássicas) ou por quem está mesmo enfermo no sanatório do mundo. Mas sendo antigo, de repente, é atual, por causa da metáfora viva que contém e que os sábios do Forum  Econômico Mundial ressuscitaram.

         Muitas são as doenças sociais e econômicas que  nos solapam.  Depois que o comunismo retirou-se de cena, o mundo capitalista pensou que estava livre do mal. E eis que surpreendentemente um outro mal está comendo as   vísceras desta sociedade que se está chamando  de hipercapitalista. 

          Que mágica se pode fazer na montanha de dinheiro acumulado pelo hipercapitalismo para sanar os males que corróem as vísceras de nossa comunidade?

         Penso se o  mundo  não foi sempre foi um sanatório em Davos.   

Talvez o ser humano não esteja exatamente doente. É provável que o ser humano  é que seja, ele mesmo, uma doença. Uma doença chamada homem, construído em cima de contradições, das quais bondade e perversão,  saúde e doença, vida e morte são apenas algumas insanáveis variantes. 

 

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