(EM 2004 FAZENDO NUM GIRO POÉTICO PELO CHILE POR OCASIÃO DO CENTENÁRIO DE NERUDA, PASSEI POR CONCEPCIÓN, AGORA DESTRUIDA PELO TERREMOTO E ESCREVI ESTA CRONICA PARA "O Globo")
Estou sentado no El Mesón Nerudiano, aqui em Santiago do Chile, e sob o prato está uma folha de papel, tipo serviço americano, que traz um poema de Neruda. Por coincidência, o poema Caudillo de congrio, sobre essa delícia chilena, que já comi várias vezes nessa viagem. Como se sabe, Neruda fez vários poemas dedicados às comidas e temperos que adorava. Parece que sobraram peixes e mariscos que o poeta, em sua gula poética, não exauriu de todo na costa chilena. Estou conversando com David Valjallo, hoje com oitenta anos, poeta que conheci na Califórnia, em 1966, quando convidou-me para apresentar-me com atores e poetas um espetáculo de poesia latino-americana em Hollywood. Ora, vejam so! Estou também com o poeta José Maria Memet e sua esposa-a atriz colombiana Ana Paula. José Maria, que realiza encontros poéticos que reúne 500 mil e até um milhão de pessoas, convidou-me para durante dez dias, percorrer cidades chilenas declamando poemas. Isto faz parte das comemorações do centenário de Pablo Neruda que nasceu em 12 de julho de 1904. Há uma hora atrás estava fazendo leitura de meus poemas no Instituto Goethe. Mas o mais insólito é que, antes, às cinco da tarde foi dizer poemas no metrô, instalado na cabine do condutor. Tenho dito poemas em lugares assás estranhos, mas essa foi uma leitura realmente underground..
Perguntei ao condutor se as janelas dos vagões estavam bem fechadas, porque temia que algum passageiro tentasse escapar desastradamente de meus versos. Para meu consolo ele acabou pedindo-me a cópia do poema Os desaparecidos, que trata de uma tragédia durante a última ditadura, que os chilenos conhecem amargamente. Não só isso, de repente, ao sair da cabine para a estação, após ecoar poesia pelos vagões diante de passageiros perplexos, uma moça surge correndo atrás de mim e me dá um bilhete. Quise escuchar. Sí, pero las voces interrompierón. Quiero oir tus cuentos, odas a la infancia. Me trajiste en este instante al mundo atento, imaginé tu rostro y no puedo ir sin verlo. Que consolo para o poeta cujo primeiro livrinho adolescente se chamava- O desemprego do poeta! Noutra estação, vejo um passageiro batendo no vidro e insistindo para falar conosco e já passando um bilhete.Era um brasileiro há quinze anos ali, e que queria falar-falar-falar da vida e do Brasil.
Mas como lhes dizia no princípio, estou à mesa deste El Mezon Nerdiano e aproxima-se uma simpática figura- Eduardo Peralta que en el año nerudiano canta a Brassens todos los lunes. Ele nos convida a passar para a parte de baixo daquela casa, onde dezenas de pessoas o ouvem cantar. São canções inteligentes e críticas, com grande variação rítmica e melódica, enquanto ele vai., com uma vitalidade contagiante, comentando o que canta. De repente, anunciam meu nome e convocam-me ao palco. Não tem jeito. Não sou nenhum Maiakovsky falando para multidões, não sou nenhum Neruda falando para trabalhadores em mina de salitre, mas também não sou mudo.
Comecei esse giro poético, lá em baixo, quase na Antártida, em Valdivia, cinco graus, vento e chuva. E mais: um terremoto que chacoalhou-me os ossos da alma às sete da manhã.Coisa de rotina, dizem, porque além do mais aquela região é cercada por quatro vulcões ainda em ebulição.
Tudo no Chile exala o vulcânico Neruda. Em Temuco levam-me a almoçar no hotel Continental , o mais antigo do país. E ali conduzem-me a ver o quarto em que Neruda pernoitou uma ou outra vez. Subi as velhas escadas, fui testemunhar e, claro, fotografar a porta de entrada com a devida placa. Me diverte e é uma homenagem. Escritores às vezes fazem isto. Enrique Lafourcade, romancista e polêmico jornalista, que conheci também nos anos 60 na Califórnia( Não estranhem, nos anos 60 todo mundo ia à Califórnia.Vi os Beatles lá. Vi Pelé.Vi Jobim.Vi Carlos Lacerda.Vi Gregory Peck. Vi Guinsberg e Belafonte. Dizem, que até Cristo foi visto perambulando entre a Heigh and Ashbury St. ,em São Francisco). Pois voltando ao querido Lafourcade, ele me mostraria em sua casa, em Santiago, duas rosas de metal e plástico, que surrupiou do túmulo de Rimbaud. Estranho? Nem tanto. Pois o Décio Pignatari não arrancou um pedaço de ferro da sepultura de Mallarmé?.
Numa dessas cidades, creio que em Concepción verei dupla exposição: obras de Roberto Matta, conhecidissimo pintor chileno que em Paris conviveu com Chagall, Breton, Tanguy e outros( é melhor nessas obras em água forte e água tinta, que como pintor). E também uma surpreendente exposição de tapetes bordados feitos com a técnica de arpillera, por Violeta Parra- a ensandecida apaixonada que se matou cedo. Seu irmão, Nicanor Parra, hoje com uns 90 anos, segue vivo com sua poesia meio debochada. Vivo dizendo aos chilenos, que Nicanor é o mais brasileiro dos poetas chilenos.
Depois de Santiago, vou a Valparaíso para participar de uma oficina literária com jovens poetas, sob a orientação de Sergio Muñoz, e para falar mais poemas no auditória da Sebastiana, uma das muitas casas-museus de Neruda. Acolhe-me na entrada Eliza Figueroa, mostrando seu desvelo para com tudo que ali está . A casa está lá em cima na encosta, olhando o mar. De fora não é bonita. Mas o poeta foi pedindo ao arquiteto para fazê-la crescer para cima, por isto tem cinco andares engraçadíssimos, com cômodos surrealistas, peças que ia recolhendo mundo afora- uma pia antiga, um cavalo de madeira, um quadro barroco, fotos de navio, retrato de Whitman, tetos pintados com figuras, enfim, um verdadeiro bazar ou loja de decoração. Aqui, com Matilde, o poeta recebia amigos do mundo inteiro. Numa das fotos está lá o nosso Thiago de Mello.
Parece um labirinto. Parece um observatório. Passeio entre os objetos do poeta, absorvo um pouco mais de sua vida e seus amores. Vivem dizendo por aí que a poesia não serve para nada. E, no entanto, o Chile não seria o mesmo sem Neruda.
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