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Blog :: Affonso Romano Sant'anna
DEPOIMENTO NO MAM DA UFJF

Foto e reportagem ( de Renata Lage) na Tribuna de Minas( Juiz de Fora) sobre o depoimento em DIALOGOS ABERTOS  na UFJF:

 

Affonso Romano de Sant'Anna levanta opiniões sobre passado e atualidade

Por RENATA DELAGE

A crítica e questionadora adotada ao longo da vida dá o tom do discurso e evidencia a maturidade de Affonso Romano de Sant'Anna, um dos mais influentes intelectuais brasileiros da contemporaneidade. Sobre a tese do ensaísta a respeito da obra de Carlos Drummond de Andrade, o próprio poeta modernista revelou: "Ele me desparafusou todo". Falando da brasilidade, Romano se propôs a escrever uma antologia sobre Murilo Mendes que pretendia "ser a mais abrangente possível", referência nas pesquisas acadêmicas. "É difícil resgatar a obra de Murilo, porque não é vendável", lamenta.

Em entrevista ao projeto "Diálogos abertos", que acontece no Museu de Arte Murilo Mendes, o ensaísta, poeta, cronista e jornalista parafraseou a própria ousadia como "irresponsabilidade juvenil", assumida em diversos momentos da carreira jornalística e acadêmica. "Aos meus 18, 19 anos, comecei a escrever críticas de arte para o 'Diário Mercantil'. O que eu entendia de cinema ou teatro para escrever resumos e dar minha opinião?", ironiza. "Na mesma época, procurei Arthur Arcuri para criar uma cultura artística na cidade. Era uma tentativa desesperada de me situar e encontrar a cultura em Juiz de Fora."

As memórias do escritor, nascido em Belo Horizonte e criado em Juiz de Fora, instigadas pelos entrevistadores Jorge Sanglard, Marisa Timponi, Iacyr Anderson de Freitas e Fernando Fábio Fiorese, além do mediador Darlan Lula, o levaram a um tempo em que "conseguir livros era uma dificuldade". "Logo, tive que inventá-los." Na cidade da Zona da Mata, surgiram, segundo ele, as primeiras fantasias e tentativas literárias, a primeira visão do que poderia ser o mundo.

As indagações sobre a religião marcaram a trajetória do ensaísta, criado em uma família protestante. "Tinha dois tios pastores, e cresci em uma atmosfera religiosa, sem entender muito bem o que ia ser aquilo." Abandonando as pregações, o adolescente decidiu mergulhar no jornalismo e na literatura.

Contudo, a experiência religiosa e a busca por decifrar o mundo nunca o abandonaram por completo. "Sou cada vez mais uma pessoa obcecada pelo mistério. Durante muito tempo, me senti culpado por não entender. Até que cheguei à conclusão de que não tenho competência para entender. A máquina humana está inserida em apenas duas dimensões: o tempo e o espaço. O resto, que entendo estar na terceira dimensão, só posso alcançar por meio da literatura." Resgatando um trecho de sua obra, no qual lança ao leitor o questionamento "Tenho pouco tempo para entender os três enigmas que me restam", ele dispara: "Nem eu sei quais são!".

 

 

 

Críticas ao mercado editorial

Antenado à atualidade e aos seus desdobramentos, o intelectual demonstra preocupação diante do momento editorial do país. Para ele, os interesses do mercado levam a uma superficialidade das produções literárias em detrimento da qualidade dos textos. "Quando você vai a uma livraria, só encontra livros do tipo 'fast reading'. Você lê, joga fora e não lhe sobra nada. E a literatura?", reproduz a indagação do diálogo com a esposa, a também premiada escritora, Marina Colasanti.

Levando em conta um contexto no qual são lançados 55 mil novos títulos por ano no Brasil, Romano questiona a impossibilidade de análise das obras pelos críticos, que acabam seguindo a lógica do mercado. "As editoras estrangeiras estão comprando as brasileiras, pois viram o potencial de consumo nas classes C e D. Elas criam vários selos e elegem best-sellers, como se os 'emergentes' fossem burros. É o mesmo que dar lavagem ao invés de comida", avalia.

Resta à estante virtual abrigar as grandes obras e ser o espaço das pesquisas. Atuante nas redes sociais e em blogs, o escritor define a apropriação dos novos meios como legítima na divulgação do conhecimento. "Eu devo utilizar todos os instrumentos que minha época me oferece. Porém, ao invés de falarmos abobrinhas, podemos tratar de coisas sérias."

 

"Existe uma época em que você ensina o que sabe e outra, em que você ensina o que não sabe. E é nesta última que os alunos aprendem, porque o professor aprende com eles." Na vida acadêmica, Affonso Romano revezou-se entre grandes instituições do exterior - Estados Unidos, França e Alemanha - e do país, como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Pontifícia Universidade Católica (PUC) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na qual, em 1976, articulou encontros nacionais de professores e críticos literários, que trouxeram ao país, em uma ocasião, o sociólogo francês Michel Foucault. "Era época da ditadura, não se podia fazer nada. Mas precisávamos discutir a inteligência brasileira. Foi um laboratório do que se passava na época."

Chegar aos Estados Unidos para lecionar, em 1965, foi para ele o mesmo que "cair em um lugar que estava no século XXI". "Belo Horizonte tinha 650 mil habitantes. Não existia motel ou pílula anticoncepcional. Quando voltei ao país falando sobre a cultura hippie, em 67, foi como ter chegado de Marte", brinca. A experiência deu base aos questionamentos do livro lançado em 80, "Que país é este?", que rendeu ao autor grande repercussão nacional e a publicação do poema homônimo no "Jornal do Brasil".

Ao se lembrar de quando presidiu a Fundação Biblioteca Nacional, entre 90 e 96, onde iniciou a informatização do acervo e lançou o Programa de Promoção da Leitura (Proler), o intelectual dividiu o testemunho de indignação e surpresa da época. "Os que eu achava que seriam meus aliados acabaram se revelando meus inimigos. Vi que escritores, editores, professores tinham ideias tortas sobre a leitura. Por outro lado, obtive o apoio das comunidades e ouvi algo deles que todo 'marginal' sabe: 'Ai se eu tivesse tido mais leitura'."

 

Leituras de Affonso

 

Romano

Duas obras publicadas de Romano foram lançadas na cidade na noite de terça no Museu de Arte Murilo Mendes, pelo projeto "Leituras temáticas". Poemas densos, que questionam Deus e a morte, preenchem o livro "Sísifo desce a montanha". Segundo a mitologia, Sísifo foi condenado pelos deuses a empurrar uma enorme pedra até o alto de uma montanha, para que tentasse chegar ao topo durante toda a eternidade. Adotando o caminho inverso, o intelectual discute as diversidades do ponto de vista. Diante desta perspectiva, "descer com a pedra nos ombros pode ser leve, não é mesmo?". Com serenidade, a velhice é vivenciada por ele como "interessantíssima". "O jovem olha para o futuro que não conhece. E na velhice, podemos olhar para o passado. Não ter mais 21 anos e poder voltar ao meu passado é um luxo."

Já em "Ler o mundo", o universo das significações norteiam as discussões do autor. "A maior surpresa do homem é a descoberta do fato dos animais poderem ler. Sim. Eles lêem a natureza o tempo todo. Nos tsunamis, eles são os primeiros a interpretar os sinais e fugirem para o alto das montanhas. Estamos interpretando o mundo o tempo todo, lendo o mundo o tempo todo."

 

MOACIR AMANCIO CRITICA "SISIFO DESCE A MONTANHA

 

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